sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Breve memória

"2.
De ausências e distâncias te construo
amigo
amado.
E além da forma
nem mão
nem fogo:
meu ser ausente do que sou
e do que tenho, alheio.

Na dimensão exata do teu corpo
cabe meu ser
cabe meu voo mais remoto
cabem limites, transcendências.
Na dimensão do corpo que tu tens
e que eu não toco
cabe o verso torturado
e um espesso labirinto de vontades.

Porém não sabes.
E ainda que soubesses
mais adiante,
e um roteiro pasmado de agonia
calcasse em mim sua vontade,
ainda assim
não saberias. (...)"

"(...) Me fiz em pedra.
E assim é que te falo
desta vontade lenta
desta mansa espera.
Mas não me canso.
E se é feita de rudezas
minha voz,
um dia não será.
Tenho certeza."
Poema publicado em 13 de Outubro de 1969.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

(sem nome)

"Triste tempo o que vejo da janela
e da longa rua perdida em bueiros.
Névoa, névoa. E um silêncio
tão grande dentro do cego desespero
que nem sei se é grito ou se é vazio."

Caio Fernando Abreu em 30 de agosto de 1969.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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Prece

 "eu em ti
asas abertas
sem grilhões
espaço pleno nos teus braços nus
como o que se tem
- mas nunca se completa."

Caio Fernando Abreu em Fevereiro de 1968

Poema publicado no Jornal Cruzeiro do Sul em 8 de Junho de 1968.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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Do outro lado da tarde

"E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você (...) Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante."
"O que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Do outro lado da tarde, Caio F. Abreu

O dia de ontem

"Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exata. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse (...) Não dissemos, mas concordamos no silêncio cheio de livros e jornais entre nossas duas camas, que querias a salvação e eu a perdição - ainda que nos salvássemos ou nos perdêssemos por qualquer coisa que certamente não valeria a pena." 
"Eu viajava no meio de pinheiros brancos quando disseste que a única coisa que havias desejado o dia inteiro era chorar sem salvação, num canto qualquer, sem motivo, sem dor, até mesmo sem vontade, de mágoa, de saudade, de vontade de voltar (...) e que agora a gente só tinha mesmo que continuar porque a casca tinha endurecido - e riríamos muito, mais tarde, cheios de vitalidade e vontade de abrir janelas - mas por enquanto choravas com a cabeça escondida no travesseiro, e eu não compreendia."
"Decolamos em breve, nós três no meu planeta, vocês duas no teu: quando percebi, começava a chover. Chovia lá fora e eu estava parado no meio do quarto. Estava parado no meio do quarto e olhava para fora. Olhava para fora e repetia: nunca esquecerei daquela tarde de chuva em Botafogo, quando pensei de repente que nunca esqueceria daquela tarde de chuva em Botafogo (...) e quis te dizer de como era bom que a gente tivesse se encontrado, assim, sem pedir, sem esperar, e soube que não saberia, e precisei tomar os comprimidos amarelos para não afundar e sentir o telefone calado gritando em silêncio na cabeceira."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: O dia de ontem, Caio F. Abreu

Harriet

"sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía vezenquando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando olhando e pensando meu deus ah meu deus como você me dói vezenquando."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Harriet, Caio F. Abreu

Iniciação

"Seria sem sentido chorar, então chorei enquanto a chuva caía porque estava tão sozinho que o melhor a ser feito era qualquer coisa sem sentido. Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram (...) Não sentia mais sua ausência porque eu também era ausência."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Iniciação, Caio F. Abreu

Eles

"Corri atrás dele quis detê-lo para que me explicasse alguma coisa, mas quando voltou-se tive certeza de que não conseguiria mais atingi-lo: não era mais aquele menino. Era um deles, com os mesmos olhos azuis em luz, sem sexo, lento e decidido. Voltou-se e disse a única coisa que ouvi de sua voz. Uma coisa assim: 
— Deixa que a loucura escorra em tuas veias. E quando te ferirem, deixa que o sangue jorre enlouquecendo também os que te feriram."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Eles, Caio F. Abreu

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Nos poços

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Nos poços, Caio F. Abreu

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O dia que Júpiter encontrou Saturno (Nova história colorida)

"(Silêncio)

- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu."
"(Silêncio)

- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não te mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe, sim, e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros."
"(Silêncio)

- Mas não seria natural.
- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
- Natural é encontrar. Natural é perder.
- Linhas paralelas se encontram no infinito.
- O infinito não acaba. O infinito é nunca.
- Ou sempre."
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: O dia de Júpiter encontrou Saturno, Caio F. Abreu

Natureza viva

"Ah: fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele."
"Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios , só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar."
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Natureza viva, Caio F. Abreu

Luz e sombra

"Deve haver alguma espécie de sentido ou o que virá depois? - são coisas assim as que penso pelas tardes, parado aqui nesta janela, em frente aos intermináveis telhados de zinco onde às vezes pousam pombas, e dito desse jeito você logo imagina poéticas pombinhas esvoaçantes, arrulhantes (...) O que virá depois? - pergunto então para a tarde suja atrás dos vidros, e me sinto reconfortado como se houvesse qualquer coisa feito um futuro à minha espera."
"Se permanecer aqui, parado nesta janela, estou certo que acontecerá alguma coisa grave - e quando digo grave quero dizer morte, loucura, que parecem leves assim ditas.Preciso de algo que me tire desta janela e logo após, ainda, do depois.Querer um sentido me leva a querer um depois, os dois vêm juntos, se é que você me entende (...) Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo (...) Não vejo nada, só o cinza pesado do céu e a fuligem que se deposita aos poucos na beirada da janela."
"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo por que digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora. Por vezes fecho os olhos e tenho a impressão que esses telhados intermináveis são a única coisa que existe dentro de mim, você me entende agora?"
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Luz e sombra, Caio F. Abreu

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Eu, tu, ele

"Sei pouco de ti, apenas suspeito da tua existência desde quando descobri que nem eu nem ele éramos os donos de certas palavras. Como se tivesse percebido um espaço em branco entre ele e eu e assim - por exclusão, por intuição, por invenção - te adivinhasse dono desse espaço entre a luz dele e o escuro de mim (...) Daquela última tarde de luz, o que me ficou na memória foi o visgo frio do suor nas palmas das mãos, os inúmeros pontos luminosos vibrantes dos automóveis, minhas frontes estalando com o barulho. Os automóveis eram faíscas coloridas metálicas voando sobre o cimento."
"Eu apertava minha tontura com as palmas molhadas das mãos, sem saber se ia, se voltava ou permanecia parado quieto entre aqueles pontos alucinados de luz girando em volta de mim (...) Meus dias são sempre como uma véspera de partida. Movimento-me entre as pontas como quem sabe que daqui a pouco já não vai estar presente. As malas estão prontas, as despedidas foram feitas. Caminhando de um lado para outro na plataforma da estação, só me resta olhar as coisas lerdo e torvo, sem nenhuma emoção, nenhuma vontade de ficar." 
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Eu, tu, ele, Caio F. Abreu

Os companheiros (Uma história embaçada)

"(...) pois uma história jamais fica suspensa: ela se consuma no que se interrompe, ela é cheia de pontos finais internos, o que a gente imagina que poderia ser talvez uma continuação às vezes não passa de um novo capítulo, eventualmente conservando as mesmas personagens do anterior, mas seguindo uma ordem cujas regras nos são ilusoriamente às vezes familiares? Ou inteiramente aleatórias?"
"Dentro do pleno verão, pela escada soprou inesperadamente um vento frio."
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Os companheiros (Uma história embaçada), Caio F. Abreu

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Mais uma carta para além dos muros

"Ela se debruçou sobre mim, tão próxima que consegui ver meu rosto inteiro refletido em suas pupilas dilatadas. Era bonita? Pergunta Alguém-Ninguém, a quem tento contar esta história que nem história seria. Fico aflito, tenho sempre tanto medo que me desviem do que estou tentando desesperadamente organizar para dizer; qualquer atalho poderia me perder, e à minha quase história, para todo o sempre. E nada mais triste que histórias abortadas, arrastando correntes, fantasmas inconsoláveis."

"Nas pupilas dela, desmesurados buracos negros que a qualquer segundo poderiam me sugar para sempre, para o avesso, se eu não permanecer atento - nas pupilas dela vejo meu próprio horror refletido. Eu, porco sangrando em gritos desafinados, faca enfiada no ventre, entre convulsões e calafrios indignos."
"Que sejamos doces com nossa mãe Gaia, que anda morrendo de morte matada por nós. Façamos um brinde a todas as coisas que o Senhor pôs na terra para nosso deleite e terror. Brindemos à vida."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 24/12/1995.

Sugestões para atravessar Agosto

"Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se avida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados."
"Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques-tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são (...) Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco: ."
Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em Zero Hora, 6/8/1995.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Sugestões para atravessar agosto, Caio F. Abreu

A cidade dos entretons

"PORTO ALEGRE É UM LUGAR DE INVERNOS RUSSOS E VERÕES
AMAZÔNICOS. MAS A PRIMAVERA COMPENSA."

"Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão."
Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em Zero Hora, 18/2/1995.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: A cidade dos entretons

Sob o céu de Saigon

"Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta (...) Costumam usar jeans desbotados, esses rapazes, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, alguma jaqueta ou suéter geralmente puídos nos cotovelos (...) Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos freqüentes das calçadas da Augusta (...) Um único rapaz: este, com a barba por fazer e mãos enfiadas no fundo dos bolsos, que agora, logo depois de cruzar o topo da Avenida Paulista, começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde."
"Ela era uma dessas moças, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta (...) Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo, às vezes tênis gastos, camisetas ou alguma blusa de musselina, seda crepe, ou outro tecido assim fino, que um rápido olhar mais arguto perceberia de imediato não se tratar de uma pessoa prostituta ou empregada doméstica (...) Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o topo da Avenida Paulista começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde."
"E porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas, encontram-se esses dois, esses vários, em frente ao mesmo cinema e olham o mesmo cartaz. Love kills, love kills, ele repete baixinho, sem perceber a moça a seu lado (...) E então como se um anjo de asas de ouro filigranado rompesse de repente as nuvens chumbo e com seu saxofone de jade cravejado de ametistas anunciasse aos homens daquela rua e daquele sábado à tarde naquela cidade a irreversibilidade e a fatalidade da redondeza das esquinas do mundo - ele olhou para ela e ela olhou para ele."
"Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele. Mas disse, a moça disse:

- Parece Saigon, não?
- O quê? - ele perguntou sem entender.

Ela apontou para cima:

- O céu. O céu parece Saigon.

Surpreso, e meio bobo, ele perguntou:

- E você já esteve em Saigon?
- Nunca - ela sorriu outra vez. - Mas não é preciso. Deve ser bem assim, você não acha?
- O quê? - ele, que era meio lento, tornou a perguntar.
- O céu - ela suspirou. - Parece o céu de Saigon.

Ele sorriu também outra vez. E concordou:

- Sim, é verdade. Parece o céu de Saigon."
"Uns cem metros além, ela pela alameda Tietê, ele pela Santos, esse rapaz e essa moça, ou talvez os dois, ou quem sabe mesmo nenhum, mas de qualquer forma ao mesmo tempo, pensam vagos e sem rancor mas estes sábados sempre tão chatos, porra, nunca acontece nada. Por associação de idéias nem tão estranha assim, ele ou ela, ou nenhum dos dois, talvez olhem ou não para trás procurando quem sabe algum vestígio, um resto qualquer um do outro pela rua Augusta deserta do sábado à tarde."
"Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Acima deles, nuvens cada vez mais densas escondem súbitas o anjo. O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm, parecia mesmo o céu de Saigon, quem sabe pensaram. Embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá."
Caio Fernando Abreu em Além do ponto e outros contos, 1ª ed. Editora ática, 2010.
Seleção de Luís Augusto Fischer.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Sob o céu de Saigon, Caio F. Abreu

Retratos

"Domingo:

O barulho da chuva é o mesmo de seus passos esmagando folhas que não existiam.
Flor é abismo, repeti.
Flor e abismo. E de repente descobri que estou morto."
Caio Fernando Abreu em Além do ponto e outros contos, 1ª ed. Editora ática, 2010.
Seleção de Luís Augusto Fischer.

Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Retratos, Caio F. Abreu

domingo, 9 de agosto de 2020

Para ler ao som de Vinícius de Moraes

"E sem ser sociólogo nem historiador, tento entender como tudo começou. Quem sabe com a própria poetização da miséria, o câncer medonho crescendo escondido enquanto todo mundo achava bonitinho o moleque de morro pedindo dinheiro. Nem escola, saúde ou comida, um troquinho, quem sabe um sambinha e tudo bem, um barquinho a deslizar. Até que o moleque armou-se até os dentes para comandar arrastões outros que não os de Elis. O único parâmetro de dar-certo-na-vida que um moleque favelado tem atualmente é ser traficante, e ser então bacana: vídeo, CD e metralhadora para matar, que a vida não vale nada."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em Zero Hora, 5/11/1994.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Para ler ao som de Vinícius de Moraes, Caio F. Abreu

Oito cidades alemãs e um Brasil

"SER UM ESCRITOR BRASILEIRO EM VIAGEM POR OUTRO PAÍS É
UMA SAIA JUSTA QUE EXIGE MUITA COMPENETRAÇÃO."

"Eterno rejeitado, o Brasil nem suspeita do interesse e do carinho que desperta. Todos querem que o Brasil dê certo, nessas noitadas de fragmentos solidários pelas cidades alemãs, todos queremos que tudo dê certo para todos nós, terráqueos (...) Quero voltar já: as respostas para o Brasil estão nas esquinas do próprio Brasil."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em Zero Hora, 22/10/1994.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Oito cidades alemãs e um Brasil, Caio F. Abreu

Primeira carta para além do muro

 "Dói muito, mas eu não vou parar. A minha não desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei é a única coisa que poderá me salvar. Um dia entenderemos talvez (...) Minha única preocupação é conseguir escrever estas palavras -  elas doem, uma por uma - para depois passá-las, disfarçando, para o bolso de um desses que costumam vir no meio da tarde."

"E que são doces, com suas maçãs, suas revistas. Acho que serão capazes de levar esta carta até depois dos muros que vejo a separar as grades de onde estou daquelas construções brancas, frias (...) A única coisa que posso fazer é escrever - essa é a certeza que te envio, se conseguir passar esta carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 21/8/1994.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Primeira darta para além do muro, Caio F. Abreu

Existe sempre uma coisa ausente

"Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo - nada interessa."
"Eu sentia uma profunda falta de alguma coisa que eu não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio (...) Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente (...) Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 19 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."
Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 3/4/1994.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Existe sempre uma coisa ausente, Caio F. Abreu

Carta anônima

"PARA LER AO SOM DE MELODIA SENTIMENTAL, DE VILLA-
-LOBOS, CANTADA POR OLIVIA BYINGTON."

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança (...) Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando os cacos de vidro entre os lençóis."

"Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a passagem correr, e penso demais em você (...) Boas e boas, são as coisas todas que penso quando penso em você (...) Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis enquanto penso."

"No meu pensamento (...) deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua."

"Sei que é muito louco, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão frequente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe."


Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 16/3/1988.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Carta anônima, Caio F. Abreu

Na terra do coração

"NAVE, NINHO, POÇO, MATA, LUZ, ABISMO, PLÁSTICO, METAL, 
ESPINHO, GOTA, PEDRA, LATA."

"Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável (...) Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças nas janelas, rapazes pela praça, tules violeta sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais."

"Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco (...) Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 10/2/1988.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Na terra do coração, Caio F. Abreu

A quem interessar possa

(...) podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não...