"Deve haver alguma espécie de sentido ou o que virá depois? - são coisas assim as que penso pelas tardes, parado aqui nesta janela, em frente aos intermináveis telhados de zinco onde às vezes pousam pombas, e dito desse jeito você logo imagina poéticas pombinhas esvoaçantes, arrulhantes (...) O que virá depois? - pergunto então para a tarde suja atrás dos vidros, e me sinto reconfortado como se houvesse qualquer coisa feito um futuro à minha espera."
"Se permanecer aqui, parado nesta janela, estou certo que acontecerá alguma coisa grave - e quando digo grave quero dizer morte, loucura, que parecem leves assim ditas.Preciso de algo que me tire desta janela e logo após, ainda, do depois.Querer um sentido me leva a querer um depois, os dois vêm juntos, se é que você me entende (...) Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo (...) Não vejo nada, só o cinza pesado do céu e a fuligem que se deposita aos poucos na beirada da janela."
"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo por que digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora. Por vezes fecho os olhos e tenho a impressão que esses telhados intermináveis são a única coisa que existe dentro de mim, você me entende agora?"
Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados, Ed. Especial. Nova Fronteira, 2016.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Luz e sombra, Caio F. Abreu



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