"Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo - nada interessa."
"Eu sentia uma profunda falta de alguma coisa que eu não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio (...) Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente (...) Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 19 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."
Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 3/4/1994.
Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Existe sempre uma coisa ausente, Caio F. Abreu


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