domingo, 9 de agosto de 2020

Carta anônima

"PARA LER AO SOM DE MELODIA SENTIMENTAL, DE VILLA-
-LOBOS, CANTADA POR OLIVIA BYINGTON."

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança (...) Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando os cacos de vidro entre os lençóis."

"Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a passagem correr, e penso demais em você (...) Boas e boas, são as coisas todas que penso quando penso em você (...) Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis enquanto penso."

"No meu pensamento (...) deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua."

"Sei que é muito louco, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão frequente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe."


Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 16/3/1988.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Carta anônima, Caio F. Abreu

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