sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A quem interessar possa

(...) podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar-comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser eu não sou mais tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme amar esse espaço enorme entre eu e você (...)
Obs: A imagem não é retirada de um livro de Caio Fernando Abreu.

Caio Fernando Abreu em O Essencial da Década de 1970, 2, ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.
Quer ler o texto inteiro? Confira aqui: A quem interessar possa, Caio F. Abreu

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Limite branco

"É fácil morrer, A toda hora, em todos os lugares, a morte está se oferecendo. Mais difícil é continuar vivendo. Eu continuo. Não sei se gosto, mas tenho uma curiosidade imensa pelo que vai me acontecer, pelas pessoas que vou conhecer, por tudo que vou dizer e fazer e ainda não sei o que será.
Eu queria grandes espaços, amplitudes azuis onde meus olhos pudessem se perder e meu corpo pudesse se espojar sem medo nenhum. Queria e quero – ainda. Voar junto com alguém, não sozinho. Mas todos me parecem tão fracos, tão assustados e incapazes de ir muito longe. Talvez eu me engane, e minhas asas sejam bem mais frágeis que meu ímpeto. Mas se forem como imagino, talvez esteja fadado à solidão. 
Estou me repetindo, dizendo mil vezes a mesma coisa. No fundo, há só uma verdade: me sinto só. Talvez seja essa a causa dos meus males. Ou será o desconhecimento do que sou, como escrevi ontem? O que eu sei é que as coisas que preocupam podem ser resumidas e poucas palavras: Deus, solidão. E, no fundo, o que existe sou eu. Como um grande ponto de interrogação sem resposta."
Caio Fernando Abreu em Limite Branco, 4. Ed. – RJ: Nova Fronteira, 2014.

domingo, 6 de setembro de 2020

Pela noite

"Uma dor lenta, vaga. Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor. (...) Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você."
"Os olhos dos dois tornaram a se cruzar. Tão raro. Nas ruas, nos ônibus, nos elevadores. Você me reconhece? E por me reconhecer, tem medo? (...) Teve um pequeno tremor, como se fizesse algo proibido e pudessem surpreendê-lo assim, vampiro de intimidades. Bebeu um gole de vinho. Talvez na noite anterior, ou à tarde, nu entre os lençóis, janelas fechadas, o ruído distante dos automóveis, na rua, coado pelas cortinas cerradas."
"De repente sentiu-se sufocado enquanto saíam por entre as mesas barulhentas, uma sufocação semelhante à daquelas manhãs de fim de semana em que, involuntário, acordava cedo demais apesar do esforço para permanecer na cama até mais tarde, para que o dia parecesse mais curto e não precisasse bater-se tanto pelo apartamento vazio, sem vontade de fazer coisa alguma a não ser olhar penas janelas."
"Uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campanhia, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela coo uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa."
"- E por que não versos? Versos, livros, filmes, músicas, quadros. Qualquer coisa, desde que seja bonita."
"Que ficaria assim um dia, dirigindo à toa, à noite, pelas ruas, cheio de memórias fatigadas sem presságio algum, ausências ocas, lembranças áridas, porque não faria nada com elas a não ser senti-las ácido, não seria necessário o rádio ligado nem direção alguma, não iria para lugar nenhum, negou, negou de novo, nunca haveria ninguém ao seu lado (...)"
"(...) Falaria consigo mesmo em voz baixa coisas sem importância, talvez cantasse repetindo nomes de outros tempos, de pessoas, cidades, livros, cruzaria de ponta a ponta a cidade que não teria fim, atravessando túneis, viadutos, por baixo, por cima da terra, que tinha medo da morte cega em seu encalço e das perdas e das marcas deixadas pelas perdas e mais além, das perdas tão completas que nem sequer deixavam marcas e do que não conseguiria lembrar, sentia pena dos cacos entre as mãos, tão pulverizados que mesmo que os apertasse com força não conseguiria arrancar nem uma gota de sangue."
"Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer."
"(...) o sonho é meu, numa espécie de êxtase, satori, nirvana, eu acredito, eu sigo acreditando, outra vez eu acredito, embaixo da cachoeira, eu não paro um segundo de acreditar porque tudo é vivo vibra brilha, meu corpo não se separa da água nem da pedra nem do céu que vejo entre as folhas."
São Paulo (Jardim América), 1980
Rio de Janeiro (Santa Teresa), 1983

Caio Fernando Abreu em Estranhos Estrangeiros - SP: Companhia das Letras, 1996.
Quer ler a novela inteira? Confira aqui: Pela noite, Caio F. Abreu

Bem longe de Marienbad

"Não deve passar de oito horas e quinze minutos de uma noite de novembro quando, sozinho, na estação com minha mochila, olho em volta e não há ninguém a minha espera."
"Jogo a mochila nas costas e penso: sempre haverá um hotel ao alcance do olho e das pernas de alguém perdido, aqui ou em qualquer outro lugar do planeta, e isso sempre deve ser também uma espécie de solução, mesmo provisória. Como os próprios hotéis estão aí afinal para isso mesmo: o provisório. Puxo o zíper da jaqueta de couro até o pescoço, enfio as mãos nos bolsos, os pés na lama, e atravesso a rua."
"Jogo o cigarro no espaço. Como de costume, repito e repito: bem, paciência, querido, ainda não será desta vez que. E com a mesma nitidez de todas essas coisas que vejo e faço neste momento, enquanto contemplo o sol sobre o estuário, parado na sacada como numa fotografia, na seqüência imediata deste momento que se move, decido ir embora de Saint-Nazaire."
Saint-Nazaire, dezembro de 92

Caio Fernando Abreu em Estranhos Estrangeiros - SP: Companhia das Letras, 1996.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Bem longe de Marienbad, Caio F. Abreu

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O Marinheiro

"- Abraça tua loucura, antes que seja tarde demais - ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem, por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o voo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas (...) Porque a vida incha lá fora, invadindo janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais, e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas."
"Ao pé da escada, ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem um peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas, eu quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim, para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejamos eu, ele, uma coisa única."
"Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:
- Tenho sete formas. Navegue.
Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade."
Caio Fernando Abreu em Triângulo das Águas (Noturnos).
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

Dodecaedro

V. ISIS

"Para não chorar, por ter pensado na noite de março descendo clara sobre os telhados, pelos bombons esmagados, principalmente por meu medo, acho, para calar a fome de açúcar no fundo da garganta, foi que comecei a cantar. (...) Minha voz era maior que eu e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto."

OITAVO FRAGMENTO
DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ

"Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre panelas. A vida é agora: aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de Iemanjá."
Caio Fernando Abreu em Triângulo das Águas (Noturnos).
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Breve memória

"2.
De ausências e distâncias te construo
amigo
amado.
E além da forma
nem mão
nem fogo:
meu ser ausente do que sou
e do que tenho, alheio.

Na dimensão exata do teu corpo
cabe meu ser
cabe meu voo mais remoto
cabem limites, transcendências.
Na dimensão do corpo que tu tens
e que eu não toco
cabe o verso torturado
e um espesso labirinto de vontades.

Porém não sabes.
E ainda que soubesses
mais adiante,
e um roteiro pasmado de agonia
calcasse em mim sua vontade,
ainda assim
não saberias. (...)"

"(...) Me fiz em pedra.
E assim é que te falo
desta vontade lenta
desta mansa espera.
Mas não me canso.
E se é feita de rudezas
minha voz,
um dia não será.
Tenho certeza."
Poema publicado em 13 de Outubro de 1969.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

(sem nome)

"Triste tempo o que vejo da janela
e da longa rua perdida em bueiros.
Névoa, névoa. E um silêncio
tão grande dentro do cego desespero
que nem sei se é grito ou se é vazio."

Caio Fernando Abreu em 30 de agosto de 1969.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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Prece

 "eu em ti
asas abertas
sem grilhões
espaço pleno nos teus braços nus
como o que se tem
- mas nunca se completa."

Caio Fernando Abreu em Fevereiro de 1968

Poema publicado no Jornal Cruzeiro do Sul em 8 de Junho de 1968.
Poema publicado em Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu; organização de Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva. Editora Record, 2012.

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Do outro lado da tarde

"E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você (...) Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante."
"O que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou."
Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado, Coleção L&PM, 2018.
Quer ler o conto inteiro? Confira aqui: Do outro lado da tarde, Caio F. Abreu

A quem interessar possa

(...) podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não...