quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Dodecaedro

V. ISIS

"Para não chorar, por ter pensado na noite de março descendo clara sobre os telhados, pelos bombons esmagados, principalmente por meu medo, acho, para calar a fome de açúcar no fundo da garganta, foi que comecei a cantar. (...) Minha voz era maior que eu e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto."

OITAVO FRAGMENTO
DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ

"Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre panelas. A vida é agora: aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de Iemanjá."
Caio Fernando Abreu em Triângulo das Águas (Noturnos).
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

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