"- Abraça tua loucura, antes que seja tarde demais - ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem, por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o voo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas (...) Porque a vida incha lá fora, invadindo janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais, e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas."
"Ao pé da escada, ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem um peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas, eu quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim, para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejamos eu, ele, uma coisa única."
"Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:
- Tenho sete formas. Navegue.
Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade."
Caio Fernando Abreu em Triângulo das Águas (Noturnos).
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.



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