"Uma dor lenta, vaga. Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor. (...) Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você."
"Os olhos dos dois tornaram a se cruzar. Tão raro. Nas ruas, nos ônibus, nos elevadores. Você me reconhece? E por me reconhecer, tem medo? (...) Teve um pequeno tremor, como se fizesse algo proibido e pudessem surpreendê-lo assim, vampiro de intimidades. Bebeu um gole de vinho. Talvez na noite anterior, ou à tarde, nu entre os lençóis, janelas fechadas, o ruído distante dos automóveis, na rua, coado pelas cortinas cerradas."
"De repente sentiu-se sufocado enquanto saíam por entre as mesas barulhentas, uma sufocação semelhante à daquelas manhãs de fim de semana em que, involuntário, acordava cedo demais apesar do esforço para permanecer na cama até mais tarde, para que o dia parecesse mais curto e não precisasse bater-se tanto pelo apartamento vazio, sem vontade de fazer coisa alguma a não ser olhar penas janelas."
"Uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campanhia, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela coo uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa."
"- E por que não versos? Versos, livros, filmes, músicas, quadros. Qualquer coisa, desde que seja bonita."
"Que ficaria assim um dia, dirigindo à toa, à noite, pelas ruas, cheio de memórias fatigadas sem presságio algum, ausências ocas, lembranças áridas, porque não faria nada com elas a não ser senti-las ácido, não seria necessário o rádio ligado nem direção alguma, não iria para lugar nenhum, negou, negou de novo, nunca haveria ninguém ao seu lado (...)"
"(...) Falaria consigo mesmo em voz baixa coisas sem importância, talvez cantasse repetindo nomes de outros tempos, de pessoas, cidades, livros, cruzaria de ponta a ponta a cidade que não teria fim, atravessando túneis, viadutos, por baixo, por cima da terra, que tinha medo da morte cega em seu encalço e das perdas e das marcas deixadas pelas perdas e mais além, das perdas tão completas que nem sequer deixavam marcas e do que não conseguiria lembrar, sentia pena dos cacos entre as mãos, tão pulverizados que mesmo que os apertasse com força não conseguiria arrancar nem uma gota de sangue."
"Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer."
"(...) o sonho é meu, numa espécie de êxtase, satori, nirvana, eu acredito, eu sigo acreditando, outra vez eu acredito, embaixo da cachoeira, eu não paro um segundo de acreditar porque tudo é vivo vibra brilha, meu corpo não se separa da água nem da pedra nem do céu que vejo entre as folhas."
São Paulo (Jardim América), 1980
Rio de Janeiro (Santa Teresa), 1983
Caio Fernando Abreu em Estranhos Estrangeiros - SP: Companhia das Letras, 1996.
Quer ler a novela inteira? Confira aqui: Pela noite, Caio F. Abreu









Nenhum comentário:
Postar um comentário