sábado, 8 de agosto de 2020

Pálpebras de neblina

"TEXTO TRISTÍSSIMO, PARA SER LIDO AO SOM DE GIULIETTA
MASINA, DE CAETANO VELOSO."

"Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido frequente demais, até mesmo um pouco (ou muito) chato. Mas que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará."

"Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter (...) Depois um amigo meu me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu esquecesse de mim. E fez."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 18/11/1987.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: Pálpebras de Neblina, Caio F. Abreu

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