sábado, 8 de agosto de 2020

61: Verdade interior

"O VENTO SOPRA SOBRE O LAGO E AGITA AS ÁGUAS. BARCOS
DE PAPEL NAVEGAM PELAS SARJETAS."

"Algumas vidas existindo tão discretamente quanto a sua, por trás de outras vidraças nos edifícios do outro lado e além da rua (...) Então, o céu escurece. Não há pausa nem gradação. Súbito, o céu escurece (...) Então começa a chover. Gotas pesadas, esparsas. Depois elas se aglomeram, mais finas. E chove, de repente, atrás da vidraça onde você está. Parado, atento."

"Frágil - você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal, de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos, começa a passar."

"Outra vez chinês, você se afasta um pouco para ver melhor o ideograma. "Verdade interior" - você repete. E acrescenta: "Tenho uma boca taça. Quero compartilhá-la com você". Estende as mãos para frente, como se fosse tocar o rosto de alguém. Mas você está sozinho, e isso não chega a doer, nem é triste. Então você abre a janela para o ar muito limpo, depois da chuva. Você respira fundo. Quase sorri, o ar tão leve: blues."

Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias, 2ª ed. Edigraf Ltda., 2012.
Crônica publicada em O Estado de S. Paulo, 21/10/1987.

Quer ler a crônica inteira? Confira aqui: 61: Verdade interior, Caio F. Abreu

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