quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Paris não é uma festa

 - Você está muito nervoso - ela disse sem pensar.

Ele parou em frente à janela e tirou os óculos. Os olhos, ela viu, os olhos tinham mudado. Estavam parados, como uma coisa no fundo que parecia paz. Ou desencanto.

- Eu estou muito calmo - ele disse.

Mas não eram só os olhos e o rosto sem barba, não eram só aquelas roupas bizarras, estrangeiras, nem as duas pulseiras e o anel de pedra roxa, não era só o cabelo mais comprido...

- Você mudou - ela disse.

- Tudo mudou.

Ele tornou a colocar os óculos. Ela pensou em pedir-lhe para fechar a janela. Mas não disse nada. Amassou de novo aquele papel, não tinha importância alguma. Os pingos grossos molhavam os livros e os papeis em desordem. Por trás dele tinha começado a chover.

Caio Fernando Abreu em Fragmentos, seleção de Luciano Alabarse. 
Coleção L&PM POCKET

Quer ler a história toda? Confira aqui: Paris não é uma festa, Caio F. Abreu

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A quem interessar possa

(...) podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não...