quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Os sobreviventes

 "Uma certa saudade, e você em Sri Lanka (...) um dia de monja, um dia de puta, um dia de joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda."

"Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais (...) Ah, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria salvar minha vida, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, era só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz."

"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? (...) Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim?

"Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka (...) mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?"

"Que aconteça uma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o que, como aquela fé que a gente teve um dia (...) não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite vem chegando."

Caio Fernando Abreu em Fragmentos, seleção de Luciano Alabarse. 
Coleção L&PM POCKET
Quer ler a história toda? Confira aqui: Os sobreviventes, Caio F. Abreu

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